REFLEXãO

IA na Educação: parceria cognitiva?

A expressão “parceria cognitiva” vem sendo utilizada para caracterizar interações entre pessoas e inteligência artificial. Mas o que ela pressupõe sobre cognição, aprendizagem e desenvolvimento humano? A partir de duas pesquisas recentes, esta reflexão distingue os resultados observados nas interações com IA das concepções teóricas que lhes atribuem sentido. Na perspectiva histórico-cultural, o desafio pedagógico não é negar os recursos tecnológicos, mas compreender suas mediações sem transferir às ferramentas o lugar do sujeito que aprende, pensa e responde por sua atividade.

edupp1320 10 out 2026 5 min de leitura

CLASSIFICAÇÃO

Antes de aderir ao entusiasmo ou ao alarmismo sobre IA na educação, vale olhar para o que as pesquisas empíricas estão dizendo.

Duas investigações recentes ajudam a qualificar esse debate: uma de Kosmyna e colaboradores, vinculada ao MIT Media Lab (2025), e outra de Wang e Zhang (2026). Elas investigam situações e dimensões diferentes do uso educacional da IA. Por isso, seus resultados não devem ser tratados como conclusões diretamente opostas. A tensão entre eles, porém, merece atenção.

No estudo de Kosmyna e colaboradores, 54 participantes realizaram tarefas de redação em três condições: com ChatGPT, com mecanismo de busca ou sem ferramentas. Registros de eletroencefalografia indicaram menor conectividade neural no grupo que utilizou o ChatGPT, além de dificuldades para citar o próprio texto e menor percepção de autoria. Trata-se de um estudo preliminar, com amostra restrita e resultados vinculados a uma tarefa específica; não autoriza concluir que o uso de IA cause, de modo geral, perda de capacidade cognitiva.

Wang e Zhang investigaram 912 universitários na China, na Europa e nos Estados Unidos, combinando levantamentos em três momentos e entrevistas. Seus resultados associam o uso da IA, concebido pelos pesquisadores como parceria pedagógica, tanto à vigilância crítica quanto à delegação estratégica de tarefas, que em determinadas condições se relacionam a experiências de aprendizagem transformadora.

O estudo não demonstra que a IA possua cognição: examina formas de interação e seus efeitos educacionais.

Em comum, os estudos mostram a necessidade de confrontar interpretações generalizantes com investigações empíricas, sem apagar as diferenças entre seus objetos, métodos e limites.

O conceito que precisa ser interrogado

Wang e Zhang empregam a noção de “parceria pedagógica” entre humanos e IA, relacionada a processos de vigilância crítica e delegação cognitiva. Esse enquadramento se aproxima do vocabulário mais amplo de “parceria cognitiva”, empregado em parte do debate educacional. Mas a expressão resiste a um exame mais rigoroso?

Uma parceria pressupõe dois agentes que realizam atividade conjunta. E aqui está o problema central: a IA não possui cognição.

Isso não é detalhe. É o nó da questão.

Conhecer pressupõe um sujeito que experiencia o mundo, que carrega história, corpo e intencionalidade. A IA processa padrões estatísticos em dados produzidos por quem efetivamente conheceu. Há uma diferença abissal entre aprender e otimizar pesos em uma rede neural.

O que está em jogo no desenvolvimento cognitivo

O desenvolvimento cognitivo humano implica um organismo vivo, constituído em relações sociais e históricas, com necessidades, vulnerabilidades e uma experiência concreta de mundo. Esse processo não se confunde com o treinamento e o funcionamento de sistemas computacionais.

A diferença não é técnica. É ontológica.

Na relação humano-IA, a assimetria é radical:

O humano traz intenção, problema, contexto existencial, julgamento de valor e responsabilidade. A IA devolve outputs estatisticamente plausíveis, gerados a partir da produção intelectual de outros humanos.

Quando naturalizamos a IA como "parceira cognitiva", corremos riscos concretos:

· Terceirizar o esforço cognitivo — precisamente uma das atividades pelas quais o sujeito pode desenvolver suas capacidades.

· Tratar outputs de IA como conhecimento neutro, invisibilizando os vieses embutidos nos dados de treino.

· Reduzir oportunidades de exercitar funções executivas — planejamento, organização e controle — quando essas atividades são delegadas sem mediação pedagógica.

Uma formulação mais consistente

Do ponto de vista da pedagogia histórico-cultural, as funções psicológicas superiores são constituídas social e historicamente por sujeitos concretos. Cognição envolve consciência, intencionalidade, experiência vivida e produção de sentidos.

Nenhum desses elementos pode ser atribuído a modelos computacionais atuais.

A expressão "parceria cognitiva" pode funcionar como metáfora instrumental. Mas deve ser relativizada. Porque só um dos lados da parceria pensa de verdade.

Uma formulação mais precisa poderia ser:

A IA não possui cognição. Ela simula resultados observáveis da atividade cognitiva humana por meio do processamento computacional de dados. Por essa razão, não estabelece uma parceria cognitiva com o ser humano — atua como uma ferramenta cultural sofisticada que pode apoiar, ampliar, substituir ou empobrecer processos cognitivos humanos, dependendo de como é utilizada. E ainda pode controlar e condicionar dependendo da função social que cumpre.

A questão pedagógica que importa

Não é apenas discutir se a IA pode ser chamada de parceira cognitiva.

É compreender como evitar que seu uso substitua os processos cognitivos que a educação precisa desenvolver.

Habilidades cognitivas — a IA simula os produtos dessas habilidades. Não as possui.

Atenção

· Humano: foco intencional, dirigido por necessidade e afeto

· IA: ponderação matemática — metáfora, não equivalência

Percepção

· Humano: integração sensorial encarnada no corpo

· IA: processamento de tokens — sem sensação nem corporalidade

Memória

· Humano: reconstrutiva, emocional, autobiográfica

· IA: pesos fixos após treino — sem memória episódica

Raciocínio

· Humano: inferência com compreensão e consequência existencial

· IA: inferência probabilística sem entendimento do que está em jogo

Linguagem

· Humano: ancorada em experiência vivida e intenção comunicativa

· IA: manipulação estatística de símbolos sem referência ao mundo

Funções executivas

· Humano: planejamento com propósito, valores e consciência de si

· IA: sequenciamento de outputs sem agência real

PRÁXIS EM MOVIMENTO

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