É bastante comum ouvir, em rodas de formação e em publicações de design educacional, que a educação deveria deixar de focar o conteúdo para focar a aprendizagem. Mas será que essa oposição faz sentido?
Quando colocamos conteúdo e aprendizagem em lados opostos, corremos o risco de criar uma falsa dicotomia. É como se conteúdo fosse sinônimo de transmissão passiva e aprendizagem, sinônimo de participação ativa. Além disso, só existe aprendizagem quando há algo a ser aprendido. Não existe aprendizagem vazia, flutuando livre de conteúdo.
Forma e conteúdo não se separam; constituem uma unidade. O ensino-aprendizagem é uma relação dialética, mediada pelo professor e pela professora e pelo conhecimento, não uma escolha entre transmitir ou deixar aprender.
O conteúdo sistematizado é conhecimento socialmente construído, historicamente acumulado e transformado, que precisa ser apropriado pelo estudante por meio das relações entre ensino e aprendizagem. Secundarizar o conteúdo nesse processo, sob o pretexto de “centrar no aluno”, é esvaziar a própria função social da escola e o verdadeiro significado do ato educativo, que é o de garantir o acesso ao conhecimento.
Também se tornou frequente valorizar competências como criatividade, pensamento crítico e resolução de problemas como se elas pudessem surgir espontaneamente, como se fossem capacidades autônomas, desconectadas de qualquer base de conhecimento.
Mas vale perguntar: é possível pensar criticamente sobre aquilo que não se conhece? É possível resolver problemas em um campo do saber sem dominar seus conceitos fundamentais?
Isso não significa defender uma educação centrada apenas na transmissão de conteúdos. O conhecimento é uma condição necessária para a educação, mas não suficiente. Aprender envolve curiosidade, motivação, interesse, pertencimento, interação social, confiança e vínculos humanos. Conhecimento e emoção não habitam universos separados; estão profundamente entrelaçados.
Mas, quando a escola negligencia o conteúdo, corre o risco de esvaziar a aprendizagem. Quando ignora os processos de aprendizagem, corre o risco de transformar o conhecimento em mera informação.
Creio que o desafio para nossa formação como educadores seja compreender que conteúdo e aprendizagem formam uma unidade dialética. O conhecimento oferece aquilo que deve ser apropriado. A aprendizagem expressa o processo dessa apropriação. E a pedagogia, como ciência e como práxis, tendo o professor e a professora como sujeitos insubstituíveis, é a mediação que articula ambos.
Por fim, inspirados na perspectiva de Paulo Freire, sejamos educadores e educadoras a favor da esperança e de uma docência que desenvolva os princípios de uma prática articulada com a vida, com as experiências cotidianas, com as teorias e com o conhecimento.
