Em 2016, escrevi sobre cultura escolar. Releio hoje e percebo que o tema continua urgente — e, em muitos aspectos, ainda incomodamente atual.
A escola não é apenas um lugar onde se transmite conteúdo. Ela é um organismo vivo, atravessado por relações de poder, rituais cotidianos e práticas que ensinam muito além do currículo formal. A fila na entrada, a hierarquia entre as disciplinas, o jeito como o espaço é organizado, quem pode circular onde — tudo isso educa. Silenciosamente, mas educa.
E aqui está o ponto que muitas vezes passa despercebido: a cultura escolar não é neutra. Nunca foi. Toda ação pedagógica expressa, de forma consciente ou não, determinadas concepções sociais, ideológicas e culturais. Cada escolha — o que se ensina, como se ensina, quem se avalia e como — carrega uma visão de ser humano e de sociedade. Não existe prática pedagógica sem posição. A questão é se essa posição é assumida com clareza ou exercida às cegas.
É por isso que o Projeto Político-Pedagógico e a formação continuada dos profissionais da educação não são burocracia nem formalidade. São espaços nos quais a escola decide — ou deveria decidir — que práxis quer construir. Teoria e prática articuladas com intencionalidade.
As perguntas que esse processo precisa responder são diretas e desconfortáveis: que práxis queremos construir? Para que — e para quem — estamos aqui? A escola existe para reproduzir, homogeneizar e conservar? Ou para mediar processos que significam, transformam e emancipam?
Essa escolha se manifesta, inclusive, em como a escola lida com o fracasso escolar. Durante décadas, a responsabilidade pela não-aprendizagem foi atribuída ao estudante e à sua família — ao bairro, à condição social, a algum “impedimento” biológico, cultural ou linguístico centrado no aluno. Raramente a pergunta era voltada para dentro: o que a escola pode fazer diferente?
Isso não é ingenuidade. É um mecanismo de seletividade. Quando não sabemos lidar com a diversidade, criamos mitos para justificar quem fica para trás — e a escola segue ensinando, inclusive, quem “merece” aprender.
Escolas que questionam seus próprios métodos, que assumem sua não-neutralidade com responsabilidade e investem na formação de quem educa fazem uma escolha diferente. Quando o projeto da escola é coletivo e intencional, abrem-se possibilidades concretas de transformar práticas e trajetórias. Não de uma hora para outra, mas transformações dessa natureza também se constroem no cotidiano.
Quando a escola não se questiona, porém, corre o risco de naturalizar a exclusão e tratar como incapacidade individual aquilo que também resulta das condições sociais e das próprias práticas escolares. Essas escolhas, mesmo quando silenciosas, são pedagógicas.
É necessário nos perguntarmos:
O que a escola tem escolhido, mesmo sem perceber?
O Projeto Político-Pedagógico da escola expressa que tipo de sociedade queremos ajudar a construir?
