Antes de aderir ao entusiasmo ou ao alarmismo sobre IA na educação, vale olhar para o que as pesquisas empíricas estão dizendo.
Duas investigações recentes ajudam a qualificar esse debate: uma de Kosmyna e colaboradores, vinculada ao MIT Media Lab (2025), e outra de Wang e Zhang (2026). Elas investigam situações e dimensões diferentes do uso educacional da IA. Por isso, seus resultados não devem ser tratados como conclusões diretamente opostas. A tensão entre eles, porém, merece atenção.
No estudo de Kosmyna e colaboradores, 54 participantes realizaram tarefas de redação em três condições: com ChatGPT, com mecanismo de busca ou sem ferramentas. Registros de eletroencefalografia indicaram menor conectividade neural no grupo que utilizou o ChatGPT, além de dificuldades para citar o próprio texto e menor percepção de autoria. Trata-se de um estudo preliminar, com amostra restrita e resultados vinculados a uma tarefa específica; não autoriza concluir que o uso de IA cause, de modo geral, perda de capacidade cognitiva.
Wang e Zhang investigaram 912 universitários na China, na Europa e nos Estados Unidos, combinando levantamentos em três momentos e entrevistas. Seus resultados associam o uso da IA, concebido pelos pesquisadores como parceria pedagógica, tanto à vigilância crítica quanto à delegação estratégica de tarefas, que em determinadas condições se relacionam a experiências de aprendizagem transformadora.
O estudo não demonstra que a IA possua cognição: examina formas de interação e seus efeitos educacionais.
Em comum, os estudos mostram a necessidade de confrontar interpretações generalizantes com investigações empíricas, sem apagar as diferenças entre seus objetos, métodos e limites.
O conceito que precisa ser interrogado
Wang e Zhang empregam a noção de “parceria pedagógica” entre humanos e IA, relacionada a processos de vigilância crítica e delegação cognitiva. Esse enquadramento se aproxima do vocabulário mais amplo de “parceria cognitiva”, empregado em parte do debate educacional. Mas a expressão resiste a um exame mais rigoroso?
Uma parceria pressupõe dois agentes que realizam atividade conjunta. E aqui está o problema central: a IA não possui cognição.
Isso não é detalhe. É o nó da questão.
Conhecer pressupõe um sujeito que experiencia o mundo, que carrega história, corpo e intencionalidade. A IA processa padrões estatísticos em dados produzidos por quem efetivamente conheceu. Há uma diferença abissal entre aprender e otimizar pesos em uma rede neural.
O que está em jogo no desenvolvimento cognitivo
O desenvolvimento cognitivo humano implica um organismo vivo, constituído em relações sociais e históricas, com necessidades, vulnerabilidades e uma experiência concreta de mundo. Esse processo não se confunde com o treinamento e o funcionamento de sistemas computacionais.
A diferença não é técnica. É ontológica.
Na relação humano-IA, a assimetria é radical:
O humano traz intenção, problema, contexto existencial, julgamento de valor e responsabilidade. A IA devolve outputs estatisticamente plausíveis, gerados a partir da produção intelectual de outros humanos.
Quando naturalizamos a IA como "parceira cognitiva", corremos riscos concretos:
· Terceirizar o esforço cognitivo — precisamente uma das atividades pelas quais o sujeito pode desenvolver suas capacidades.
· Tratar outputs de IA como conhecimento neutro, invisibilizando os vieses embutidos nos dados de treino.
· Reduzir oportunidades de exercitar funções executivas — planejamento, organização e controle — quando essas atividades são delegadas sem mediação pedagógica.
Uma formulação mais consistente
Do ponto de vista da pedagogia histórico-cultural, as funções psicológicas superiores são constituídas social e historicamente por sujeitos concretos. Cognição envolve consciência, intencionalidade, experiência vivida e produção de sentidos.
Nenhum desses elementos pode ser atribuído a modelos computacionais atuais.
A expressão "parceria cognitiva" pode funcionar como metáfora instrumental. Mas deve ser relativizada. Porque só um dos lados da parceria pensa de verdade.
Uma formulação mais precisa poderia ser:
A IA não possui cognição. Ela simula resultados observáveis da atividade cognitiva humana por meio do processamento computacional de dados. Por essa razão, não estabelece uma parceria cognitiva com o ser humano — atua como uma ferramenta cultural sofisticada que pode apoiar, ampliar, substituir ou empobrecer processos cognitivos humanos, dependendo de como é utilizada. E ainda pode controlar e condicionar dependendo da função social que cumpre.
A questão pedagógica que importa
Não é apenas discutir se a IA pode ser chamada de parceira cognitiva.
É compreender como evitar que seu uso substitua os processos cognitivos que a educação precisa desenvolver.
Habilidades cognitivas — a IA simula os produtos dessas habilidades. Não as possui.
Atenção
· Humano: foco intencional, dirigido por necessidade e afeto
· IA: ponderação matemática — metáfora, não equivalência
Percepção
· Humano: integração sensorial encarnada no corpo
· IA: processamento de tokens — sem sensação nem corporalidade
Memória
· Humano: reconstrutiva, emocional, autobiográfica
· IA: pesos fixos após treino — sem memória episódica
Raciocínio
· Humano: inferência com compreensão e consequência existencial
· IA: inferência probabilística sem entendimento do que está em jogo
Linguagem
· Humano: ancorada em experiência vivida e intenção comunicativa
· IA: manipulação estatística de símbolos sem referência ao mundo
Funções executivas
· Humano: planejamento com propósito, valores e consciência de si
· IA: sequenciamento de outputs sem agência real
